sexta-feira, 27 de junho de 2008

O quebra-cabeça do Alimentos

Segurança Alimentar, Energia e Meio Ambiente: encontros e conflitos

Anice Afonso Esteves
Claudio Ribeiro Falcão

A questão de segurança alimentar voltou à tona nas últimas semanas, graças às declarações do relator da ONU, Jean Ziegler, quando afirmou que os atuais programas de biocombustíveis representam um crime contra a humanidade. O discurso do representante das Nações Unidas deve ser considerado. Entretanto temos que analisar a problemática de forma mais ampla, observando as diversas contradições que envolvem a temática. São diversos fatores inter-relacionados, como: questão ambiental, o crescimento dos BRICS[1], os programas energéticos alternativos baseados na biomassa e a questão da segurança alimentar, ou seja, o acesso das populações aos alimentos.

É fato que o preço dos cereais tem sofrido um acréscimo. Entre 2007 e 2008, o milho sofreu uma valorização entorno de 30%; o Arroz de 70%; a soja de 80% e o trigo chegando aos 130%. Todos esses aumentos são preocupantes, principalmente o do trigo pela intensidade do acréscimo e pelo fato de ser um cereal insusbstituível na panificação, além de ser consumido em escala global.

O peso destes aumentos sobre os salários vai variar conforme as características econômicas e da composição da cesta básica de cada país. No caso brasileiro, os alimentos representam 32% dos gastos de famílias que recebem até 400 reais e 19% para famílias que ganham entre 1,6 a 2 mil reais. O peso dos aumentos sobre as condições de vida da população mundial é em alguns casos insuportável e inadmissível, principalmente, para a população de regiões importadoras de grãos, como no caso da África subsaariana, onde estes custos superam 60% da renda.

E quais seriam os fatores que contribuem com este quadro de encarecimento dos grãos? Os analistas tendem a colocar a problemática como uma simples questão da velha lei da oferta e procura. O debate, ao que parece, é mais amplo e não somente quantitativo, mas também qualitativo. Se analisarmos somente o problema sob a ótica do crescimento populacional e do consumo, corremos o risco de ressuscitar velhas teses Malthusianas[2]. Portanto, devemos destacar tanto os pontos quantitativos como os qualitativos envolvidos.

O crescimento da demanda por alimentos na China e na Índia (2,3 bilhões de habitantes). No caso chinês não é o simples acréscimo populacional, mas também o aumento do consumo de carne, que é uma tendência mundial. São necessários mais de 6 quilos de grãos para produzir um quilo de carne, por isso o aumento do rebanho bovino exerce uma pressão sobre a produção e o preço dos grãos.

A elevação do preço do barril do petróleo (superando os 120 dólares), o que contribui para o aumento do custo do transporte e do preço dos fertilizantes. Curiosamente chegamos a um paradoxo, pois a alternativa mais próxima e viável para substituição parcial ou integral do petróleo, são os biocombustíveis, sendo estes apontados como os grandes vilões.

Hoje 10% da produção mundial de milho são destinados a produção de biocombustível. Nos EUA, maior produtor de biocombustível do mundo, um terço da área de produção de milho abastece a indústria do etanol, lembrando que a colheita norte-americana representa 54% da produção mundial, algo em torno de 15% do milho que alimenta o planeta virou energia. A receita agrícola América foi recorde: 85 bilhões no ano passado, impulsionado pelos incentivos governamentais na área do etanol. Os agricultores americanos cada vez mais encaminham a sua produção para o setor energético, em detrimento do mercado alimentar.

Nas circunstâncias atuais o programa brasileiro de álcool contribui com a alta dos preços? Não. Apesar dos esforços de governos e empresas comprometidas com a economia do petróleo, não podemos culpar o Brasil, pois o mesmo ocupa menos de 1% da área agrícola com a produção de combustível à base de cana. Entretanto, devemos estar atentos ao modelo de expansão da produção de biocombustível, tanto o Proálcool, como o programa nacional de produção biodiesel, para que não contribuam com a escassez de alimentos e a elevação dos preços.

Podemos falar em mudanças climáticas? Tendo vista, que estima-se para este ano que a produção mundial de grãos alcance os 2,16 bilhões de grãos, a maior de toda a história. É certo que algumas áreas tiveram sua produção afetada por mudanças ambientais recentes, entretanto a produção global de grão manteve-se em alta. Certamente, os ganhos de produtividade oriundos do uso de novas tecnologias aplicadas à agricultura, como os OMGs[3] (organismos geneticamente modificados), influenciaram nesta realidade.

Enfrentamos um dilema. A necessidade do crescimento da produção de grãos, seja para fins energéticos ou alimentares, obriga a expansão da produtividade e gera uma pressão pelo aumento da área de cultivo. O que nos leva a crer, que as áreas florestais se encontram cada vez mais ameaçadas. Basta observar o avanço da soja na região amazônica, contribuindo com o desmatamento e com possíveis mudanças climáticas globais que por sua vez, tendem a comprometer a produtividade agrícola, exigindo um aumento da produtividade e da área de produção.

Com toda a controvérsia que envolve os OMGs, não será que a atual crise acabe reforçando os argumentos dos defensores desta opção tecnológica para agricultura, apesar das incertezas ainda existentes?

Finalizando a questão é mais complexa do que a imprensa ou determinados setores tentam apresentar. O debate esta em aberto.


[1] BRICs- Termo criado pelo grupo Goldman Sachs, para designar as economias emergentes - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. As atenções internacionais cada vez mais se voltam para esses países, pois a capacidade de crescimento, os seus mercados, e a forma que estes lidam com o seu quadro natural, são fundamentais para definir o futuro global.
[2] As teorias Malthisianas buscam relacionar o crescimento populacional aos problemas alimentares, de desenvolvimento e até mesmo ecológicos, privilegiando uma análise quantitativa, e não qualitativa. Deixando de observar características históricas, teconológicas, sociais e humanas,que envolvem estes problemas..
[3] Os OMGs são o resultado da evolução técnicas denominadas de melhoramento genético. No inicio dos anos 70 teve início uma revolução científica quando a biologia molecular criou a chamada engenharia genética, permitindo a manipulação de genes de qualquer espécie permitindo assim alterar as características dessas espécies. O debate sobre o uso dos transgênicos, os seus impactos sobre o ambiente e a saúde humana ainda estão abertos.

3 comentários:

Guilherme disse...

AE CARA , ADOREI SEU BLOG, ele é ÓTIMO! Continue postando..seria legal postar diariamente
obrigado!

Claudio Falcão disse...

Cabe lembrar que o aumento nos preços das commodities agrícolas e da carne bovina, tem contribuido para o avanço do desmatamento da amazônia.

Claudio Falcão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
 
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